quarta-feira, 9 de março de 2011

A MULHER NA POLÍCIA MILITAR



Nesse Dia Internacional da Mulher nada mais justo homenagear as duzentas policiais militares femininas do RN que fazem diuturnamente a segurança da sociedade.

Transcrevo abaixo um texto da Major Tereza, uma das pioneiras a ingressar na PMRN.


A MULHER NA POLÍCIA MILITAR



A Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte abraçou na instituição o chamado “sexo frágil” - ou “segundo sexo”, como diria Simone de Beauvoir em seu livro “Segundo Sexo” - a partir do final da década de 80, quando as primeiras mulheres foram admitidas na instituição. A Companhia de Polícia Feminina, CPFEM, tornou-se a partir de então um símbolo, um estandarte do rompimento com a cultura patriarcalista da época, que destinava as mulheres funções tidas como delicadas ou caseiras. Obviamente, como toda ruptura, isto não aconteceu sem traumas ou impactos sociais ou, como preferia dizer Beauvoir, “todas as vitórias ocultam uma abdicação”.

O livro de Beauvoir, lançado em 1949 na França, e em 1960 no Brasil, trata-se de uma reflexão feminista e dogmática, tornando-se notado a partir de 1968 com acontecimentos pontuais de luta contra a opressão masculina. A obra não foi lançada com o objetivo de ser o píncaro do movimento feminista, apesar de ter sido adotado como tal, mas sim uma reflexão teórica acerca da condição feminina frente a sua condição social e a luta por seus direitos.

Muito influenciada pelo filósofo Jean Paul Sartre, seu esposo durante toda sua vida, ela escreveu “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, onde claramente podemos observar a influência existencialista sartriana, que pregava a luta pela liberdade individual. Para quem não conhece Sartre, foi ele que cunhou a célebre frase “o homem está condenado a liberdade”, o que significa que a liberdade pode ser não um presente ou uma conquista, mas sim um castigo.

Pioneiras - Em 1955, a Polícia Militar do Estado de São Paulo notabilizou-se por ser o primeiro Estado da Federação Brasileira a admitir nas suas fileiras mulheres para fazer segurança pública. Na seqüência de uma ruptura de discriminação direcionada ao sexo feminino, outros Estados, por volta de 1970, criaram as primeiras companhias femininas. Contudo, a moral machista mostrava-se irredutível, e apenas nos anos 80 aconteceu a entrada massificadora da mulher na polícia. Não quero levar o leitor a acreditar que o machismo tenha acabado a partir daí, mas sim que o movimento estava diretamente ligado a uma crise da própria instituição: O questionamento do modo de atuação dos policiais, que eram vistos sempre como seres truculentos e pouco inteligentes. Então na desestabilização das características que foram marcas de segurança pública passou a não mais servir de forma eficiente a sociedade que exigia uma mudança. Na busca por características na atividade policial mais adequada a sociedade da época, como, “inteligência, capacidade de resolução de conflitos, inovação, trabalho em equipe”, a mulher se apresentou como a melhor e mais eficiente alternativa para a nova polícia: uma polícia cidadã.

O nosso Estado admitiu as primeiras mulheres no posto de oficial em 1987, vindo a primeira Companhia de Polícia Feminina do RN a ser inaugurada após alguns anos. A sociedade potiguar antes imersa em uma cultura de coletividade, lentamente começou a abrir-se para as mudanças propostas pelo movimento feminista. E não poderia ser diferente com as conquistas constituídas por esse sexo que não se apresenta como frágil, quando o assunto é segurança pública.

O que se pode notar com o passar dos anos é que a inserção da mulher na Polícia Militar termina por criar uma tecnologia de produção social, que constitui mulheres com um novo perfil e prontas para trabalhos antes considerados exclusivos ao público masculino. A mulher no serviço policial ostensivo se mostra muito eficiente com sua paciência somada à técnica policial, embora sobre ela pese séculos de ideologias machistas.

Mesmo o número de mulheres sendo pouco expressivo dentro de uma instituição do porte da Polícia Militar, sejam por razões ideológicas ou culturais – na PMRN elas são apenas 200, ou seja, aproximadamente 2% do efetivo geral de policiais - a presença da mulher na atividade policial é cada vez mais necessário e indispensável.

Voltando a Beauvoir, podemos questionar a divisão do sexo como sendo algo divino ou humano? A biologia é um destino ou as mulheres são o que são por uma moral, ou melhor, foi educada para ser o que é? E a submissão de um sexo a outro, uma condição de imposição moral ou apenas um desejo dos deuses? A que se deve a cultura de um sexo submisso a outro? Nos parece mais do que notável que tanto as perguntas quanto as respostas são provocativas por demais e em se tratando de responder tais questionamentos em uma suposta guerra de sexos, os homens - o outro lado desta batalha moral - esquecem de seu humanismo e negam às mulheres os seus valores ulteriores. Podemos começar a responder a esses primeiros questionamentos mais uma vez citando Simone: “Ser mulher, não é somente exercer seu sexo de uma certa maneira, mas é ser classificada de uma determinada maneira na sociedade”.

Conseguiríamos responder a última pergunta com a assertiva de um pensador grego que muito influenciou o ocidente. Vejam o que Pitágoras escreveu: “Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher”, como um dos principais pensadores da filosofia ocidental e indireto influenciador da moral cristã que norteia os nossos dias, Pitágoras parece ter sido um dos principais pensadores moralistas que condenaram as mulheres a tal estado de submissão aos homens.

Para Beauvoir, a mulher não encontra um nível de lucidez enquanto não enxerga a si própria como um ser oprimido pelo homem. Observando as policiais da Polícia Militar – enquanto parte de um macro universo feminino – me pergunto: estarão elas em pleno estado de lucidez para lutar por seus valores ulteriores? Teriam estas policiais a consciência de quão importantes elas são para o tecido social e como representação da vitória através da abdicação?

Refletir sobre a importância do seu papel profissional é também uma forma de exercer sua individualidade e o seu marco coletivo como um ser feminino. A complexidade social e suas relações não se apresentam diferentes para as mulheres, uma vez que no uso da idéia de igualdade se advoga o cumprimento de iguais responsabilidades e funções, mas sem a perda de sua essência.

O feminismo na Polícia Militar não é apenas um discurso intelectual, filosófico ou político. Temos a história de luta do movimento, em sua defesa.



Major PM Maria Tereza Melo dos Santos Boggio

Retirado doo blog de sdglaucia

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